Em tempos de Covid – 19 – coronavírus e da intensa exposição da população a uma grande quantidade de informações simultâneas, e que nem sempre são verídicas, uma questão faz-se urgente refletir: até que ponto conseguimos nos blindar, com um senso crítico, quando nos alimentamos destas informações? Nesta primeira grande epidemia global na era da hiperconectividade, as informações se alastram mais rápidas do que o próprio vírus e vem dominando os diálogos e disseminações em todas as plataformas digitais e meios de comunicação clássicos (Rádio, Jornal, TV).
Tal afirmativa vem ao encontro dos discursos da própria Organização Mundial da Saúde (OMS), que já usa o termo “infodemia” para destacar este bombardeio diário de dados e suas respectivas consequências. Mas, a nomenclatura não dá aporte apenas ao conceito das desconstruções das informações, e, sim, já chama a atenção para um perigoso fenômeno que pode acarretar em violências diversas e mortes. Foi o que ocorreu no Irã, na primeira semana de março, por exemplo, quando a agência oficial iraniana informou que 27 pessoas haviam morrido intoxicadas depois de ingerirem álcool adulterado, acreditando em um boato de que esta mistura poderia proteger e até curar da Covid – 19.
Esta e outras tantas formas de “experimentos” e “curas”, que chamamos de “fake news” – e alguns órgãos de imprensa denominam como “fake science” – estão sendo disseminadas, principalmente, por redes sociais e aplicativos de socialização. Os excessos de informações que recebemos diariamente direcionam análises do senso comum e são perigosos, quando não são checados. É o que relata o Professor de Leitura e Produção de Texto (LPT) do Colégio ECEL, Tiago Dedoné. Ele, que também é Jornalista, pesquisador membro da Associação Brasileira de Pesquisadores e Profissionais em Educomunicação (ABPEducom) e pesquisa, há quase 20 anos, as áreas de Educação para os Meios e Leitura Crítica da Mídia na perspetiva das mediações tecnológicas, tem trabalhado os gêneros textuais e os discursos da linguagem, com alunos do Ensino Médio.
De acordo com ele, todos nós, cidadãos, temos responsabilidade com o que compartilhamos, já que com a democratização dos recursos de comunicação, passamos, também, a produzir conteúdos, mesmo que informal. “Quando eu curto ou compartilho uma informação, eu estou endossando, se não complemento com algum discurso crítico que delimita o contrário. Não somos mais apenas leitores e consumidores de informações; nós, também, somos um pouco produtores de conteúdos. E isso requer maturidade, responsabilidade, por que estou levando para os meus amigos e pessoas que não conheço, estas informações, por vezes, com leituras subjetivas equivocadas ou incompletas. E se elas não são verídicas e acabam norteando ações problemáticas?”, questiona.
Comportamento viral
O Professor destaca que é tempo de ampliar o pensamento da ética comportamental e, também, ter o senso crítico diante do que consumimos de informações. “É um momento complexo, pois, além deste aspecto do avanço da infodemia, como a OMS destaca, há uma série de discursos românticos – como os de conflitos entre defensores de agrupamentos políticos partidários distintos – que acabam piorando ainda mais a situação e gerando outros conflitos, como discursos xenofóbicos criminosos, por exemplo. Então, o tempo é de serenidade emocional”.
Ele enaltece que alguns procedimentos podem ajudar nesta tentativa de absorção de conteúdo correto:
1) não compartilhe nada que não tenha autoria oficial – e, mesmo que tiver, busque saber se a publicação já foi divulgada também em outra fonte, o que lhe daria mais legitimidade. Além disso, compreenda a distinção entre notícia informativa e opinião -;
02) priorize os dados de fontes como OMS, Governo Federal – Estadual – Municipal e órgãos científicos;
03) interrogue a informação: quem está por trás da informação? Qual a evidência?;
04) Imprensa estabelecida – a imprensa tem acesso às autoridades e às informações – a liberdade de imprensa tem amparo constitucional -. Então, ela é uma fonte muito importante para aquisição de dados. Mais do que isso, os jornalistas possuem a expertise de decodificar e sistematizar informações, de forma objetiva e entendível. Ela filtra esta enorme avalanche de informações e investiga. Claro que, também, vale a regra da leitura lateral – comparar com outras fontes -. A educação para os meios precisa, também, ser uma constante -;
05) Confiabilidade: há blogs e redes sociais de muitos pesquisadores, instituições de pesquisa, profissionais sérios de várias áreas. Pesquise a confiabilidade destas fontes;
06) tomar muito cuidado com o aspecto emocional. Há pessoas que passam mal depois de receberem informações advindas de fake news. Então, cuide da ansiedade, da angustia, dos sentimentos. Isso pode gerar estado de pânico, desatenção e prejudica a saúde mental.
O Professor conclui destacando que a saúde da sociedade também depende muito da saúde da informação que circula nos cenários sociais. E, ao passar este período de pandemia, configurará um importante desafio, principalmente, para as instituições de ensino: atuar no debate sobre a educação para a mídia e o papel da cultura digital como, inclusive, preconiza a Base Nacional Comum Curricular – BNCC.
